5 de maio de 2010

Show?


E teve um dia que cheguei cedo em casa. Antes mesmo de descer do carro sou abordado (não, isso não é um conto policial, não serei assaltado) pelo Celso. Ele é meu vizinho e um puta cara gente boa. Ele, já completamente bêbado me pergunta com toda a firmeza que um macho deve demonstrar quando está.......bêbado:
- De zero a dez, que nota vc dá pro CPM22?
- 2.
- Tenho uns ingressos pro show deles hoje, quer ir?
- Lógico! Que horas?
- Nove horas.
- Porra! Mas já são oito e meia!!!!
- Foda-se! Quer ir?
- Bora lá!
Tomei um banho rápido, coloquei a primeira roupa que sorriu pra mim e fomos.
Chegamos ao Via Funchal. Deixamos o carro dele num estacionamento absurdamente caro como de costume nesses eventos (fui de motorista, porque estava sóbrio, certo Mr. Bafômetro?) e caminhamos até a entrada da casa.
Lá nos deparamos com uns garotos desolados sentados na rampa de acesso. O Celso olhou pra mim e de repente ele pergunta aos tristes:
- Vocês querem ver o show?
- ......
- Não querem não?
- Queremos, queremos, queremos....!!!!
- Então tó! (6 ingressos cheirosos e originais apontados na fuça de um dos pequenos Emos)
Fez-se o ânimo naqueles meninos e eles acabaram entrando antes que pudéssemos pronunciar a palavra “Porra!”.
Lá dentro o show já estava bem andado, na verdade bem pro fim. Comecei a reparar e concluí que a idade média não ultrapassava 15 anos.
Ficamos lá no fundo observando a muvuca da garotada. Achei que iriam levantar o palco e levar pra casa. O Pit Lane parecia um berçário. Criançada doida.
Celso magoou quando soube que não havia bebida alcoólica lá dentro, mas...gente, tinha garoto bem doido lá, viu? (mães e pais descolados: preparem-se!).
Acabou o show, passadinha básica no w.c. e ao sair do prédio nos deparamos com uma enxurrada de pais e mães aguardando os rebentos quase rebeldes.
Fomos acompanhando o fluxo e lá na frente havia um sujeito vendendo bebidas, com aquelas geladeiras de isopor, quase ajoelhado ele ia gritando:
- Guarná, Coca, Água....Guaraná, Coca, Água...
De longe ele nos viu e :
- Aê Barba! Tem cerveja gelada aqui!
Porra! Todo mundo olhou pra gente!
- Dá uma aê! (só pra garantir a macheza)
Sabe que até hoje não lembro de um acorde sequer das músicas que provavelmente foram tocadas naquele show. Lembro muito bem do saborosíssimo X-salada que comi no Cambuci quando voltávamos, da companhia agradável do Celso e do sujeito da geladeira de isopor! Nunca havia me sentido tão velho!

2 de abril de 2010

O Poder Da Pedra.


É comum quando uma pessoa inicia num novo emprego. Não foi diferente quando isso aconteceu com o Wanderley. Chegou lá, sentou na mesa que lhe era reservada. Mesa que era de um parceiro que fora muito querido. Wanderley manteve o padrão de comportamento.
O tempo foi passando e o desconforto inicial diluiu-se nas tramas do dia a dia. A rotina de um escritório auxilia a socialização dos novatos.
Wanderley (ou Banderley como passamos a chamá-lo) revelou-se um cara de bom papo, entretido nas tarefas quando solicitado, prestativo em diversas situações e principalmente divertido, dono de um bom humor inteligente e sutil.
Tinha a hora do almoço, a gente se divertia, ao mesmo tempo se falava de trabalho, diversas vezes a gente resolvia problemas de relacionamento interno.
Bem, as coisas foram mudando, logo a proximidade de idéias era claramente perceptível.
Cada happy-hour virava celebração de amizade infinita.
Daí para as confissões foi um pulo.
Soube então (por ele mesmo) que Wanderley usava cocaína. Comprava toda quinta-feira e dedicava o final de semana ao consumo absoluto de tudinho.
Chegava na sexta-feira e ele fazia cara de menino mergulhado em piscina de algodão doce.
Não era raro quando ele pedia cobertura pra cheirar no banheiro do escritório. Lá estava eu tomando o décimo oitavo café sem graça da manhã. Eram várias carreiras, muitos tiros.
O uso do “pó” se tornou excessivo. Um dia tive que ir até a casa dele, pois fazia três dias que não mandava notícia e estava com o carro da empresa. Foi a primeira vez que vi alguém em plena crise de abstinência.
Certo dia Wanderley saiu para uma medição em Paraty. Daí que a polícia mandou que ele parasse. A tal “paranguinha” tava lá, no bolso dele. Resultado: carro apreendido e Wanderley recolhido para um...”cafofo”.
Sei que fizeram um tipo de chantagem com os proprietários da empresa, pedindo grana em troca do carro e do Wanderley...até hoje não entendi direito o achaque.
O impasse foi resolvido (com grana, ou com influência externa, ou com outra porra qualquer) e Wanderley voltou. Dia seguinte tomou um sonoro “pé-na-bunda”.
Foi parar numa empresa lá no interior rico de São Paulo.
Lá ele foi apresentado ao crack.
Menos de um ano depois Wanderley morreu. Deixou mulher, filhos (lembro do “alemãozinho, cabecinha de pêssego, hoje deve ter uns vinte e poucos anos) e muitos amigos.
Lembro-me perfeitamente do “Banderley” falando:
- Aê Billy Joe, hoje é sexta-cheira!
Bacana né?